Moda e conteúdo, por Ronaldo Fraga
O estilista mineiro Ronaldo Fraga (Foto: Divulgação)

Mais do que um profissional que apresenta novas tendências a medida que as estações se vão, Ronaldo Fraga é o entusiasta de uma moda 360, que pensa, projeta e fala em roupas, mas não se restringe tão somente à elas. Com um trabalho que olha adiante e enxerga pessoas para além do papel de consumidores, seus desfiles e coleções carregam sempre um viés político, social e cultural. Sem perder sua essência, o estilista mineiro abraça a transformação dos tempos, e é o precursor de uma moda genuinamente brasileira, com muito conteúdo. Confira o bate-papo que tivemos com essa figura tão importante da moda nacional.

O que o Ronaldo de hoje diria ao Ronaldo do início da carreira?

Há pouco, eu estava vendo minha clipagem, organizando um material pra jogar fora e constatei uma coisa boa e outra ruim. A boa, é que eu continuo pensando exatamente como eu pensava e lutando pelas mesmas coisas. No caso da moda, em fazer com que ela seja entendida como um poderoso vetor cultural. A coisa ruim é que eu continuo pensando da mesma forma (risos). Ou eu estou estacionado ou pouca coisa andou, mas não! Eu acho que é uma visão de mundo e visão de mundo você raramente muda. Você vai evoluindo, mas não perde ela de vista. Neste ponto, o Ronaldo de hoje encontra com o mesmo Ronaldo daquele início. Só que, claro, eu achava que o mundo ia acabar depois do próximo desfile. O mundo não vai acabar. Pra mim, o ritmo é outro. Só faço o que eu tiver com vontade de fazer hoje.

Qual foi o momento mais marcante da sua trajetória profissional?

Eu fiz o primeiro curso em 84 e lancei a marca em 96, portanto, estamos falando de 21 anos de marca e pouco mais de 30 anos de profissão. Foram muitos momentos marcantes. Ter ganho o concurso por uma grande tecelagem em 92 (o prêmio foi uma pós-graduação em NY), ali foi um turning point na minha carreira. A estreia no Phytoervas. Logo depois, a estreia no SPFW, com a coleção "Rute Salomão". Na sequência, "Quem matou Zuzu Angel?", que arrancou muitas lágrimas da plateia, da técnica, dos fotógrafos e do backstage. E, em 2010, ter recebido a comenda ao mérito do Ministério da Cultura, dado a quem, com o seu trabalho, engrandece a cultura brasileira. Numa época em que a moda ainda não era entendida como cultura, eles me deram esse prêmio, então, aquilo foi bem marcante.

Mais do que roupas e tendências, seus desfiles costumam levar às passarelas temas extremamente relevantes (fizemos, inclusive, um post sobre isso aqui no portal). Acredita que a moda tem se transformado a partir do trabalho de estilistas que pensam como você? 

A moda é um vetor extremamente diverso. É um vetor econômico, é um vetor social, é um vetor cultural. Então, pensando nisso, não dá pra direcionar a moda só na tendência do comprimento e a forma da estação. Ela é isso também, mas ela fala de outras coisas e o que eu falo no meu trabalho é sobre tendências macro. Hoje, o mundo caminha nesta direção... De falar em diversidade, de falar em tolerância, de falar em apropriação cultural, de falar em transformações, então, ali tem a tendência, mas não a "tendencinha". Eu acho que nesse lugar, sim, a moda é transformadora.

O que pensa sobre o movimento "see now, buy now"?

O movimento "see now, buy now" vem de encontro a essa democratização da informação cada vez mais rápida, uma vez que, o desfile está ali, ele entrou na casa das pessoas, as pessoas querem aquela roupa. Aquele tempo do lojista ir ao showroom, comprar, fazer suas escolhas e colocar na loja para aí, então, o consumidor poder ver, já não existe mais. Então, o "see now, buy now", vem respondendo a essa questão. Não sei se é a solução definitiva e se é um formato para todas as marcas, mas que é uma realidade, sem dúvida.

Falando sobre trabalhos recentes, você participou da concepção do São João de Caruaru e criou peças com o grupo Sereias da Penha. Seu trabalho costuma ter muita influência de movimentos culturais brasileiros. O que te motiva a trabalhar com assuntos tão específicos e regionais?

Eu acredito que deveria ser compromisso do designer ou, pelo menos, um dos compromissos, funcionar como ponte de ligação entre os diferentes "Brasis" que nós temos aqui, num país tão diverso. Quando existe esse envolvimento do designer, todos ganham: o olhar do designer sobre a comunidade e o repertório desse designer. Então, é uma via de mão dupla.

Qual é a sua relação com as redes sociais, os apps e o universo digital, de maneira geral?

Eu morro de saudade da época que não existia Whatsapp, Instagram e essa coisa toda porque eu acho que a gente focava mais. Por outro lado, o mundo mudou e eu sou extremamente participativo. Eu mesmo que alimento tanto o Instagram quanto o Facebook do "Grande Hotel" e dos trabalhos que eu faço. 

Sobre o "Grande Hotel", de onde surgiu a ideia e qual é o principal objetivo do projeto?

A história do Grande Hotel nasceu de um sonho antigo: um lugar em que eu pudesse colocar as várias frentes do meu trabalho e também aquilo que me chama atenção. Também é uma forma de repensar o varejo. Eu acho que o varejo de moda envelheceu, o formato como a gente tem feito envelheceu. Esses shoppings que estão no Brasil inteiro, todos iguais, isso aí já tem uma cara de século passado. E, hoje, se você não trouxer experiência pra dentro do varejo, aí você não vai vender nada. O Grande Hotel vende mais que roupas. Ele tem ali experiências, desde uma barbearia, um café tradicional do Mercado Central, espaço de exposições, óculos, porcelanas e esse conceito de "hóspedes", onde designers podem se hospedar por uma semana, por um mês ou até de forma permanente. Tem feito muito sucesso e desenvolvido outros produtos: o Cabaré do Grande Hotel, que acontece uma vez por semana, onde as roupas desaparecem e a loja é transformada numa casa de shows. O Cine Clube do Grande Hotel, que tem projeção no espaço de fora. E a Horta do Grande Hotel, com alimentos orgânicos.